Aqui, queremos exercitar a sinestesia, sentir textura na cor, contemplar sons, rememorar lembranças,  mesclando sentidos para vivenciar experiências
E que melhor educação sinestésica que a ARTE CONTEMPORÂNEAQuestionadora, instigante, inesgotável. A arte, atualmente, não cabe em somente uma definição. Na realidade, NADA cabe. Apesar da cultura de dividir e conquistar, a vida nada mais é que uma MISTURA contínua e mutante de sensação e percepção, junto, insano, no melhor estilo máquina de lavar.

Vamos lá, do começo… querendo saber e dominar, a sociedade (ocidental, principalmente) começou a destrinchar as coisas, temas e conceitos e, à medida que ia se aprofundando, compartimentalizava cada vez mais suas descobertas, definindo, catalogando e separando, ou seja, u0tilizando o método científico (aquele mesmo que você deveria ter usado na universidade). O que não é necessariamente ruim, MUITOS avanços foram feitos a partir dele. Mas essas divisões incessantes acabaram por separar tanto as coisas, que esquecemos que as ciências e os estudos dizem respeito a uma coisa só; nossa vida.

Entendido? Agora vamos a nossa proposta:

ARTE POR TODA PARTE

É simples assim. Acreditamos que a EDUCAÇÃO COM ARTE desenvolve o senso crítico, o pensamento livre e a vontade de MUDANÇA. O sujeito inquieto, pesquisador, ativo e livre é capaz de gerir melhor as situações de conflito, lidar com problemas, questionar e permitir a mudança, pois, reflete, reage e resiste. Pensa, se humaniza. E esse contato com a arte pode se dar de infinitas formas, até mesmo por aqui

Unidas então, SINESTESIA MUTANTE são as percepções e sensações que formam a vida.

Como diria Jack, vamos por partesSinestesia é “um fenômeno neurológico que consiste na produção de duas sensações de naturezas diferentes por um único estímulo, do grego synasthesis em que syn significa união e esthesia, sensação, então, sensação simultânea. Esse fenômeno não é considerado uma doença, aparece em uma a cada trezentas pessoas (que normalmente apresentam memória acima da média e criatividade desenvolvida).”¹  É também uma figura de linguagem, a metáfora dos sentidos humanos, ou “- cara, olha esse som!”

Ah! Não podemos esquecer de Marcel Proust (1871-1922) em Busca do Tempo Perdido, que, ao provar uma madeleine embebida em chá, é tomado por uma sensação de prazer indelével que o transporta para sua infância no interior da França, incentivando outras sensações e amarrando a narrativa a partir da experiência há tanto esquecida.

“Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal.” ²

proust marcel proust sinestesia

Mutante, metamorfoseante, ambulante, que se modifica, evolui, troca, altera, transforma. Então, SINESTESIA MUTANTE é a mistura de sensações sempre cambiante com que nos deparamos ao lidar com arte, especialmente arte contemporânea, que une e afasta compreensões para, mais que entender sentir, vivenciar. Hoje, ela estimula muito mais que a visão, requer interpretação, audição, olfato e, até, paladar, por vezes, vários sentidos ao mesmo tempo para existir.

A performance de Marina Abramovic (já ouviram falar?) e Ulay [ex dela…] incentiva essa mistura, simboliza bem essa relação dialógica (Paulo Freire, O cara!), dialética, intensa e TENSIONADA entre público e obra, sensação e percepção, ato e resposta, nós e vocês. A ARTE INCOMODA, confunde, co-move, mais que contemplada, quer precisa ser sentida, experimentada, vivida para ser OBRA DE ARTE, ela PRECISA do público e de seus sentidos para adquirir outrosmúltiplos sentidos. Ela sai do museu e invade a rua ou sai da rua e invade o museu, ela destrói, ressignifica, cria, move, sugere, possibilita, ela É.

Como disse Nietzsche em Assim Falou Zaratustra, “eu só acreditaria num deus que soubesse dançar.” Arte por toda parte. Vamos?

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Fontes:

  1. Dicionário
  2. PROUST Marcel. Em Busca do Tempo Perdido – No Caminho de Swann.
  3. A madeleine de Proust
  4. The Other: Rest Energy (1980)