“e se tudo for uma ilusão e nada existir?

nesse caso não há dúvida

de que paguei demais por aquele tapete novo.”

Woody Allen

Woody Allen sempre sabe como tornar crises existenciais em humor, e essa citação ilustra bem o post de hoje. Nos apegamos a tanta coisa, que fica difícil parar, respirar e perceber que tudo não passa de invenção, nossos objetivos, vontades, desejos, absolutamente toda a nossa sociedade é movida por grandes mentiras – ai, mentira fica pesado… – ilusões, então. O que seria de nós sem as ilusões? O tema nomeia a exposição exibida na Casa Daros, em Botafogo, até 13 de fevereiro de 2015. Então, sem desculpas, tem boa parte do verão pra ir lá conhecer.

Luis Caminitzer - Arbitrary Objects and Their Titles, 1979/2014
Luis Camnitzer – Arbitrary Objects and Their Titles, 1979/2014

A mostra trata justamente da nossa íntima e cotidiana relação com a ilusão, o olhar cansado que passa por cima dela e a aceita como verdade. Os artistas nos fazem questionar nossa percepção e dar um passo pra dentro do espelho, como fez Alice na menos conhecida história Através do Espelho de Lewis Carrol. Lá Alice encontra um mundo ilógico e invertido, com experiências que em muito se aproximam às de Arthur Dent na nave com gerador de improbabilidade infinita do Guia dos Mochileiros das Galáxias escrito por Douglas Adams, dois bons livros para se perder um pouco de nossas ilusões cotidianas.

Luis Camnitzer - This Is a Mirror. You are a Written Sentence, 1966-68.
Luis Camnitzer – This Is a Mirror. You are a Written Sentence (1966-68)

A Casa cobra ingresso de 14 reais, mas às quartas-feiras, é de graça. Pra quem não sabe, boa parte dos museus e casas culturais que cobram entrada têm um dia gratuito, só dar uma pesquisada antes de ir. Eles também oferecem visitas mediadas com artistas-educadores e até reebolsam os ônibus, basta entrar em contato com agendamento@casadaros.net, arte_educacao@casadaros.net ou 2138-0850. Eu não costumo dar esse tipo de referência, mas o programa educativo da Casa é muito inclusivo, competente e vale a propaganda. Eles contam com uma amplo ateliê de criação e educadores sensacionais cheios de ideias mirabolantes para tornar sua visita inesquecível.

Los Carpinteros - 16m, 2010
Los Carpinteros – 16m (2010)

Pros fãs de arquitetura e design, a Casa foi toda reformada, sem perder a beleza da construção original, sendo que muitos elementos são usados pelos educadores em suas práticas, reafirmando a importância histórica dos objetos, seu valor de memória e sua carga patrimonial. Conta ainda com um restaurante primoroso, um pátio central e palmeiras tão grandes que dão vertigem.

José Damasceno - O Presságio Seguinte, 1997.
José Damasceno – O Presságio Seguinte (1997)

Ah, até domingo fica montada uma tenda no pátio central exibindo um filme do Cabaret Voltaire em Zurique, na Suíça, um “centro de entretenimento artístico”, conforme descrito em seu site, que conta com espaço para reuniões, galeria, restaurante e ateliê em que foi, e é, desenvolvido o Dada desde 1916.

Diferente dos movimentos artísticos classificáveis, o Dada prega a falta de ordem como palavra de ordem. (oi?) É, isso mesmo, o Dada, que no Brasil chamamos erroneamente de dadaísmo, se baseia na ilogicidade e falta de regras, no enfrentamento do comum e ordinário, na resistência e, por isso mesmo pode ser considerado um espírito ou uma atitude, mas nunca uma escola ou um movimento artístico de base e característica única. Assim, o dada é.

Tive o prazer de participar de uma conversa com dois representantes do Cabaret que vieram ao Rio para criar essa instalação e nos instigar a respeito da aproximação entre arte e vida e, claro, sobre nossas percepções sobre o Dada. A conversa foi excelente, mas, como sempre, nos deixou com mais dúvidas que respostas, afinal, o que é o Dada? Pra pensar sobre isso você mesmo, dá um pulo lá no pátio central da Daros até domingo, não precisa pagar não e pode até deitar no chão. Riminha boba pra fechar com graça.

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