O que a cidade de Miami pode nos ensinar sobre preservação? Por que as calçadas deles são tão limpas, boa parte da população anda de carro esportivo e fazer compras é tão atraente?

Num post anterior, cobrimos um pouco da história de Miami, que se divide em duas cidades. Atravessando a ponte para a ilha, chega-se a Miami Beach e, dentro dela, no Distrito Art Déco, que ilumina a noite da cidade em luz neon.

A Miami Design Preservation League (Liga de Preservação de Design de Miami) criada por Barbara Capitman (preservacionista responsável pela manutenção dos lindos prédios déco e da criação da Liga) oferece um passeio guiado a pé pelas ruas repletas de palmeiras de South Beach (SoBe, para os íntimos) passando por lobbies de hotel, pelo lindo gramado que cerca a praia e, claro, pela famosa casa

de Gianni Versace.

Martin, nosso simpático guia, veio de Manhattan para curtir sua aposentadoria em Miami e acabou tomando para si a tarefa de apresentar outro olhar aos turistas do Distrito Art Déco. E foi exatamente isso que ele fez, treinou nosso olhar arquitetônico e contemplativo e, a partir do tour, passamos a enxergar tudo de maneira diferente.

Desde os anos 1900, viajar se tornou febre para quem tinha tempo e dinheiro para se aventurar em grandes cruzeiros pelo mundo. A arquitetura litorânea, em especial, passou a ter grande inspiração náutica, com prédios de até três andares que lembravam navios. Por não haver ar-condicionado (item indispensável em qualquer prédio de Miami atualmente), foram criadas “sobrancelhas” que cobriam a sombra das janelas. Assim, quando o Sol ficava a pino, a janela estaria completamente sombreada, e o calor seria menor.

Miami Beach era destino certo para a população mais enriquecida até1926, quando ocorreu um furacão devastador e, logo em seguida, a recessão de 29. Somente nos anos 30, se iniciou a reconstrução da cidade, que apostou no estilo déco para reavivar South Beach. Infelizmente, somente a população mais velha visitava o local, o que rendeu o infame apelido de ‘sala de espera da morte’. O crescimento da cidade se deu de forma confusa e ela acabou se tornando palco de criminalidade e abandono.

Somente nos anos 80, com Miami Vice, ocorreu um resgate de sua reputação. Gianni Versace foi escolhido como consultor de figurino da série, que mostrava uma Miami de brilho e glamour. O estilista, por sua vez, acabou construindo uma mansão em South Beach (que ainda resiste, contudo, acabou de ser comprada e se tornará, em breve, anexo do hotel ao lado) e levando celebridades a frequentar o local, reavivando a fama do local e atraindo cada vez mais turistas (que, ainda hoje, tiram fotos em frente ao seu casarão, local em que foi assassinado). Passamos pelas paredes de pele de tubarão do hotel The Tides, pelas referências do cinema do estilo Déco e conversamos sobre o filme A Gaiola das Loucas, nosso clássico de sessão da tarde, que enalteceu ainda mais as ruas de SoBe.

De maneira geral, o tour valeu muito a pena, nos fez perceber ainda mais o quanto a luta pela preservação arquitetônica é tão importante, pois, mantém a cultura e a história vivas e demonstra a importância de cuidar, manter. As ruas estão sempre limpas porque são limpas a todo momento, antes das lixeiras ficarem entupidas, são trocadas, as ruas estão sempre sendo lavadas e o lixo recolhido. Quanto mais limpo um lugar, menos as pessoas sujam. Simples, não?

As taxas nos EUA são pagas na hora da compra, então, você sabe exatamente quanto você está pagando de imposto e se vale a pena ou não. Os preços são baixo, acessíveis, e a oferta é enorme. Não é muito ambientalmente correto (pois se produz muito lixo, american way of life, you know…), mas, se compra de tudo por preços muito bons. Um belo vestidinho por 15 dólares, shampoo maravilhoso por 14 e todo tipo de produto que se quer, existe e está ao alcance. As lojas respeitam o consumidor, se não gostou, devolve, se pagou e não levou, volte e clame, sem inquisição e suposição de roubo por sua parte. O cliente sempre tem razão, mesmo.

SoBe nos lembrou muito o Aterro do Flamengo, no Rio. Em escala menor e repleto de neon e carros esportivos, resta clara a referência comum dos espaços. Art Déco, muito verde e a praia os unem, mas, limpeza, organização e preocupação com manutenção e exaltação da cultura os diferenciam muito.

Falta ao Brasil preservar e passar adiante o que já está construído, a paisagem e a cultura nós já temos, deve-se, portanto, iniciar um trabalho sério de estudo e dedicação ao que possuímos. Talvez, começando com a apropriação de um prédio para torná-lo um centro de recepção e museu, como existe lá, a união da iniciativa privada e da pública em prol do cidadão, ao invés de mero espaço para contravenção e corrupção.

Cabe às novas gerações criar uma mentalidade do todo e deixar para trás os anos de fraude e roubalheira que nos assolam (independente de partido ou ideologia, acabaram todos fazendo o mesmo). Cabe a nós ser a mudança, fazer a mudança e construir um futuro melhor. Caso contrário, o ideal mesmo continua sendo mudar pra Miami…

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