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A pedido de nossa leitora Gabrielle Marques, algumas considerações sobre o amor na filosofia, ou melhor, na sinestesia…

Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.
Friedrich Nietzsche

A busca pelo Bem e pela Verdade era grande preocupação dos antigos filósofos gregos, e o Amor seria uma forma de alcançar esses ideais. Para boa parte deles, ele seria capaz de libertar o homem e levá-lo à Verdade, criando uma ponte entre o mundo sensível (o nosso) e o inteligível (das ideias, conceitos, de onde nosso mundo deriva).

Ficou confus@? Calma! Os conceitos são tantos, mas vamos reduzir e simplificar. Sabemos que, àquela época, tudo era explicado com mitos, a partir da observação e do pensamento. Na obra O Banquete, de Platão (428-328 a.C.), Sócrates (469-399 a.C.) trata do Amor (Eros) como a força cósmica que busca o Bem e nos traz felicidade. Ele diz ter aprendido essa concepção com Diotima de Mantineia, uma sacerdotisa e vidente que a história fez questão de não mencionar…

Ok, continuemos. O mito de Eros diz que a humanidade era formada de seres duplos, haviam homens duplos (Andros), mulheres duplas (Gynos) e hermafroditas (Androgynos), que possuíam duas cabeças, quatro pernas e quatro braços e, por sua extrema força e poder, resolveram subir aos céus. Zeus, pra variar, não ficou nada feliz com isso e resolveu partir os homens para deixá-los eternamente fadados à busca por sua outra metade, ou alma gêmea, como costumamos chamar. A partir dessa ruptura, portanto, nos tornamos seres incompletos e eternamente insatisfeitos, buscando a felicidade.

loveevil

Na literatura, temos infinitos exemplos de encontros românticos, ora, toda nossa contação de histórias se baseia em relações, em suas mais diversas formas. Em Hollywood não é diferente… Relacionamentos, por si, são nossa mais constante busca e maior desafio. Hipócrates (460-377 a.C.), por sua vez, já sabia que todas as sensações, sentimentos e vontades vinham do cérebro e, atualmente, a biologia evolutiva tem explicações concisas e comprovadas de como os “hormônios do amor” e o instinto de sobrevivência funcionam.

O vínculo criado por casais apaixonados garante a segurança da espécie. Focado na sua família, o homem gasta energia em mantê-la bem provida, oferecendo todas as oportunidades para que seus filhos cresçam e perpetuem sua carga genética. Para unir o casal, o cérebro se inunda de amor – no caso, há um aumento na liberação dos hormônios dopamina e norepinefrina. São eles que causam todas as sensações típicas da paixão, como insônia, frio na barriga e pensamento obsessivo na pessoa amada. Passado o rompante da paixão, outro hormônio entra em ação: a oxitocina. É ela que faz com que os casais criem vínculos, evoluam para o sentimento de amor romântico, e continuem juntos por anos a fio.

A Química do Amor

É claro que as interpretações do amor têm muito a ver com o período e a realidade de cada um dos filósofos que o discutem. De acordo com Agostinho de Hipona (354-430 d.C.), ou Santo Agostinho, como é comumente referido, o amor é responsável por unir e elevar as pessoas à Deus, enquanto para Baruch Espinoza (1632-1677 d.C.), ele traria a felicidade pelo conhecimento, sendo intelectual. Arthur Schopenhauer (1788-1860 d.C.), contudo, acreditava no amor como a vontade cega, irracional e absurda que, assim que alcançada, gera frustração e desilusão, jamais alcançando a felicidade. Não à toa, Nietzsche (1844-1900) o chamaria de “o cavaleiro solitário”.

amor vintage

Explicações e conceitos à parte, o amor continua sendo um grande mistério, por que esse e não aquele, por que assim e não assado? “The things we do for love…” Nossa sociedade, fatalmente, tem muito da religião, da propaganda e da ordenação social envolvendo o amor, mas, podemos concordar que ele, ainda assim, vai além de tudo isso. Nos cerca e nos aproxima como seres e nos afasta um pouco da dolorosa sensação de que, um dia, em breve, tudo isso vai acabar pra nós. E o mundo? Ah, o mundo não vai sentir nem falta, mas as pessoas vão. E isso basta.

É muito melhor viver sem felicidade do que sem amor.
William Shakespeare

catlove

“Pra nós, todo o amor do mundo…”

SUGESTÕES DE LEITURA:

  • O Amor segundo os filósofos – Maurizio Schoepflin
  • O Banquete – Platão
  • Amor Líquido – Zygmunt Bauman
  • Romeu e Julieta – William Shakespeare
  • O Amor nos Tempos do Cólera – Gabriel Garcia Márquez
  • A insustentável leveza do ser – Milan Kundera
  • O pau – Fernanda Young
  • Amar, verbo intransitivo – Mário de Andrade
  • Livro de Sonetos – Vinicius de Moraes

P.S.: E não é que hoje os sinestésicos que vos falam completam dois anos de amor?! Viva!