Continuando a destrinchar os segredos do maior centro de arte contemporânea do país, vamos à rota mais recheada, a laranja.

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Começamos por Christina Iglesias , que brinca com as noções de labirinto, espelho e elementos barrocos num misto de arquitetura e escultura reflexiva e natural, Vegetation Room Inhotim [G19] confunde os sentidos e mescla a sensação de espaço infinito com a presença da vegetação e da água. A obra é site specific, ou seja, como muitas no Centro, ela foi construída especificamente para o espaço em que se encontra.

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A obra mais escondida que, certamente, pouquíssimas pessoas visitam é Beehive Bunker [A20 – Bunker Colméia] de Chris Burden, um pouco atrás de Beam Drop Inhotim [A14] do mesmo artista, sendo a segunda uma obra massiva com gigantes vigas de ferro enfiadas na terra.

O artista (que morreu em 2015) tinha fortes relações com arte performática e foi um dos pioneiros da body art, fez a primeira obra sem auxílio de máquinas, como uma estrutura bélica de defesa comumente é montada, enquanto Beam Drop (ou Queda da Viga) foi criada em 2008 com o lançamento de 71 vigas (recolhidas nas proximidades de BH) no cimento fresco com um guindaste de 45 metros de altura durante 12h, verdadeira performance que domina a visão do topo de uma montanha, misturando a intenção do artista com o acaso, o peso das vigas e a interação violenta com o cimento e umas com as outras.

Questionamento, violência, poder e desafio da ordem estabelecida são características marcantes do trabalho de Burden.

Atrás da piscina, vá à Galeria de Marilá Dardot [G17], para plantar nos vasinhos com letras (e garantir excelentes fotos!) aproximando-se da terra, do cultivo e da alegria que é plantar uma semente com A Origem da Obra de Arte (2002). Os vasos em forma de letra foram construídos no próprio Inhotim e contaram com a participação de dezenas de mulheres das comunidades próximas. Se joga!

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Mesmo que não tão secreta, a Galeria da Adriana Varejão [G7] merece sempre uma visita, a artista carioca foi casada com Bernardo Paz e passou um bom tempo no Inhotim desenvolvendo as peças que estão em exposição. No terraço, existem azulejos com belos pinturas de pássaros encontrados e catalogados pelo parque e na região amazônica, Passarinhos – De Inhotim a Demini (2003-2008), obra em homenagem aos indígenas Yanomami (com quem conviveu) e sua forte relação com pássaros.

Ao descer, os azulejões de Celacanto Provoca Maremoto (2004-2008) consistem em telas recobertas por gesso com camadas mais grossas no meio e afinadas nas pontas que, naturalmente, craquelam, criando a impressão de azulejo quebrado que, então, a artista pinta e “forja” azulejos, herança portuguesa predominante na arquitetura colonial do Rio de Janeiro. A artista aponta para a ordem desordenada que comumente esses azulejos são montados uma vez partidos ou quebrados, para os cariocas, a relação é imediata.

Curiosidade: As telas foram feitas no Inhotim com a “ajuda” da filha de Adriana com Bernardo Paz, a Catarina. Não gostamos muito de falar do valor mercadológico das obras, mas nos contaram que cada um dos azulejões vale em torno de 500 mil reais e, numa das peças, a pequena Catarina (hoje com 9 anos) acidentalmente pisou. Essa obra, pelo valor sentimental, é inestimável (literalmente). Tente encontrar o sapatinho da Catarina. Uma dica: fica no canto…

A Panacea Phantastica (2003-2007) são azulejos que retratam 50 tipos de plantas alucinógenas que vão de maconha a cogumelos, passando por diversas espécies de plantas e outras lisergias. O azulejo é recorrente no trabalho de Varejão e reforça sua forte relação com os espaços urbanos, as heranças arquitetônicas e a natureza.

Escondidinha está a Galeria da Lygia Pape [G20] que abriga a obra Ttéia 1C (2002). A artista neoconcretista iniciou suas ttéias (que tiveram diversos formatos) ainda nos anos 70 com seus alunos na EAV do Parque Lage, contudo, só se tornariam como a vemos no Inhotim no final dos anos 90, com fios metalizados esticados do teto ao chão, criando ilusões tridimensionais gloriosas na galeria toda escura.

Feche a visita com a Galeria Psicoativa do Tunga [G21], inaugurada em 2012 e que conta com a retrospectiva de 30 anos de seu trabalho, o primeiro a influenciar Bernardo Paz a investir em arte contemporânea. Obrigada, Tunga!

Ah, outra galeria que não é muito escondida, mas, certamente, é muito interativa e poderia, MESMO, se chamar Sinestesia é a Cosmococa de Hélio Oiticica e Neville D’Almeida, que consistem em espaços de trangressão, pé no chão e experimentação, instalações que eles chamaram de “quasi-cinemas”, verdadeiras sinestesia mutantes. Hélio Oiticica é um forte influenciador do nosso projeto e nossa identificação com ele é imensa.

Passe pelo Troca Troca de Jarbas Lopes, um carioca viajante como nós que fez fuscas com sons interligados e lataria trocada. Em 2002, ele viajou com 8 amigos até Curitiba colando adesivos nos carros que encontravam pelo caminho. Em 2007, fizeram o percurso de BH a Brumadinho, tendo estacionado em diversos lugares do parque, por enquanto, ao lado da Cosmococa. Corre lá!

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Quer saber um pouco mais sobre os artistas e as obras? Clique aqui. É um bom começo pra instigá-l@ a visitar e curtir arte contemporânea, que é nada mais que um reflexo de nós mesmos, nossas questões, dilemas, vontades e potências.

Lembramos que o parque conta, também, com grande acervo de árvores, plantas e orquídeas, há diversos jardins, catalogação de borboletas e muito a se descobrir para todos os gostos e interesses. Não deixe de ir!

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P.S.: DICA DE HOSPEDAGEM

Sempre que vamos, ficamos na Villa da Serra, que fica em Mário Campos, a 13 km do Inhotim. O caminho é bem simples, sem erro, o preço é bom, o café da manhã, o jantar e o atendimento são fabulosos e você pode beber água da torneira (existe uma nascente dentro da propriedade, então, toda a água é potável e saudável!) além de contar com uma piscina mara e muito, muito verde pra aproveitar. Beijo especial pra Rose, que fez nossos cafés da manhã maravilhosos e nos tratou sempre com muito carinho e prosa boa típica de Minas.

Eaí, já leu a parte I com os segredos dos outros percursos? Se não, clica.

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