NOTA DE REPÚDIO À MISOGINIA.

O vento geladinho do outono toma o Aterro do Flamengo e embala o batidão sonoro da mescla das rimas tombantes de Karol Conká e a base do ponta de lança africano Umbabarauma. Lindo, requebrante, delícia até que resolvem cortar a música e mandar uma batalha de rima*. Beleza, vamo curtir…

O sujeito tenta duas vezes, sem sucesso, encaixar seus versos prontos em bases que o DJ apresenta. Pede desculpa, se ajeita, diz que não teve tempo de gravar, esqueceu em casa e teve que “improvisar”, mas a terceira não tem erro, é dele mesmo, grita: ‘pode cobrar’.

A gente se dispõe, deixa ele falar, ali ele manda um ‘rabuda’, depois ‘vadia’, ‘só quer meu dinheiro’, ‘e não cansa de dar’, coisas do naipe, todo mundo se agita, começa a vaiar, não satisfeito (dois dias depois que uma menina foi violentamente abusada por 33 imbecis), ele manda uma pseudorima sobre 40 caras fazendo fila pra comer a tal vagabunda.

Foi a gota d’água, ele parou de cantar com as vozes gritando ‘machista, não passará’. O tal sujeito se nomeia Foragido, sem ritmo, sem intimidade com as palavras, sem saber o que falar, se faz de vítima, diz que não tem nada a ver e é coberto por um de seus comparsas que se volta contra o público e tenta mostrar que seu problema é maior, ‘e a violência na favela?’ ‘e os negros mortos?’ então quer dizer que os problemas agora tem escala, o menor e o maior, o que pode reclamar e o que deve se calar.

O cenário mudou, o jogo virou, agora é a nossa vez. Vocês não vão mais nos calar! Podemos lutar juntxs, reclamar do machismo, da violência policial, do preconceito, mas sem elevar um problema e desmerecer o outro. Tem espaço pra todxs, basta saber RESPEITAR!

A luta continua, vocês não vão nos calar!

A energia baixa, a PM aparece, o evento acaba no estilo ‘sou dono da bola, sem ela vocês não vão jogar’,

o som desligou, a luz se apagou, e agora, josé?

Deplorável. Vergonhoso. Misógino.  Patético. Machista. Vaias.

Saiba mais sobre a Cultura do Estupro:

*NOTA POSTERIOR: A festa claps, apesar de não ter se manifestado durante o evento, deixou claro que, por causa da PM e da Prefeitura do Rio, teve que se unir ao Campeonato Carioca de MCs e repudiou toda e qualquer manifestação preconceituosa e machista. Assim, nossas vaias ficam para o rap vazio, sem alma, coração e identidade do Foragido e seus parceiros defensores a quem falta EMPATIA pela causa feminista, vamos parar de olhar pro próprio umbigo um pouquinho? Machistas não passarão!