Para os maiores de 18 anos, por favor!

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Meu objetivo é trazer a discussão à tona, para pensarmos que a questão do uso de psicotrópicos é uma questão de saúde pública, não de segurança. Assisti ao documentário Rolling Papers que trata da legalização do uso da maconha recreativa em Denver, nos Estados Unidos, como uma alternativa à falida e violenta guerra às drogas e sempre me interessei pela questão da política de redução de danos e ao respeito pelo usuário e o entendimento de que o viciado (conceitos diferentes) sofre de um problema de saúde, não de falta de caráter.

Então, abra um pouco a cabeça e leia com calma.

É fácil associar os artistas ou o mundo da arte às drogas. Keith Haring, Mapplethorpe, Axl Rose, William S. Burroughs, o grande Bukowski, a lista continua… Quem não lembra do Woody Allen no clássico Annie Hall espirrando sobre a cocaína caríssima do amigo? Cena impagável!

woody allen annie hall cocaina

Já ouvimos muitas histórias sobre essa relação tão próxima entre a criatividade, o gênio artístico e o uso, muitas vezes, abusivo, de drogas. Não era incomum que acontecessem banquetes e grandes festas repletas de discussões filosóficas e excessos na Antiguidade Clássica.

Sabe-se, também, que os intelectuais do séculos XIX (cientistas e artistas, pensadores… os curiosos) experimentavam diversas drogas, sendo que muitos deles acabavam por se viciar fortemente. Não podemos esquecer dos confeitos de haxixe, que eram degustados como sobremesa ou, até, no Club des Hachichins, em Paris, cujo objetivo era incentivar a experimentação e o conhecimento das drogas. Thomas de Quincey escreveu a respeito em “Confissões de um Comedor de Ópio” em 1821, seguido por “Paraísos Artificiais” de Charles Baudelaire em 1860.

A geração beat iniciada por Kerouac em 1948 reforçou a discussão e abriu os canais de comunicação para discussões a respeito dos usos abusivos e intensos de diferentes drogas. Bukowski representou gloriosamente a escrita grotesca e extremamente descritiva do abuso, em especial, do álcool. (Olha ele aí com sua mais constante companheira!)

movies beer televandalist charles bukowski

Sem mencionar o uso excessivo de absinto pelo gênio Van Gogh e pelos poetas e amantes Paul Verlaine e Arthur Rimbaud. Na França, ainda existem alguns clubes de absinto, embora tenham uma nova roupagem. A morte de Marilyn Monroe pelo excesso de antidepressivos e de Judy Garland por doença hepática. Elvis Presley, Edgar Allan Poe, Lima Barreto, Elis Regina, Raul Seixas, Tim Maia, Kurt Cobain, Samuel Beckett, Jackson Pollock, Billie Holiday, Allen Ginsberg,  Jean Michel Basquiat, Janis Joplis, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Cássia Eller, Amy Winehouse, Michael Jackson… todas essas grandes personalidades tinham duas coisas em comum, a genialidade artística e o apego pelos excessos.

Não acredito que a droga traga algum tipo de clareza ou aptidão artística, o caminho é o contrário, a alma perturbada do artista, em especial o que obtém a fama, acaba por atrair o caminho do ultra consumo de medicamentos, drogas e outros tipos de auto flagelo e bengalas emocionais. A sensibilidade exacerbada que permite a transformação da dor, da percepção do mundo em algo belíssimo como uma obra de arte raramente vem sem preço altíssimo.

Claro que isso não é regra, há excelentes artistas que são ultra conservadores e regrados, mas aqui focamos nos que sucumbem a suas almas torturadas. O uso de drogas também pode servir, por vezes, para aguçar a sensibilidade do artista. Bryan Lewis Saunders, artista norte-americanos, resolveu fazer um estudo comparativo em que pintou uma série de auto retratos sob influência de diferentes tipos de drogas, o resultado completo (muito interessante!) você pode ver no link, mas separamos algumas pra você, abaixo.

 

 

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É uma tarefa complexa estabelecer qual a real ligação entre as drogas e a criatividade, mas a abertura das “portas da percepção”, conforme trata Aldous Huxley em seu livro de mesmo nome, e referenciado por Arthur Omar em exposição que já mencionamos por aqui, certamente, auxilia a se desligar do mundo concreto e se aproximar do seu lado mais abstrato, em que repousa a criatividade artística.

Calma lá! Não adianta achar que você vai se drogar e escrever uma composição virtuosa, não é assim que funciona não! Mas é estranho pensar no quanto governos e poderes mais conservadores e ditatoriais sempre temem, tanto a arte, quanto as drogas. E o quanto a falta de controle das massas é temida por quem está no poder, por abrir espaços de crítica e percepção incomuns.

Enfatizo que essa não é uma publicação de incentivo às drogas, seria, até, prepotência minha achar que esse pequeno texto influenciaria alguém a experimentar algo pela primeira vez. A intenção, repito, não é essa!

Acredito que se houver legalização, é possível fazer testes e, então, saber o real efeito que os psicoativos têm, portanto, entendendo seus riscos e sua capacidade de adição, podendo prevenir esses casos e, se for o caso, tratá-los da maneira mais correta, humana e não violenta possível. Baixemos as pedras e reflitamos sobre os reais problemas e as possibilidades do uso recreacional de algumas drogas.

Afinal, a cerveja é legalizada e incentivada e mata muito, sempre. Na verdade, não a cerveja, o indivíduo que a consome. Portanto, deixemos de lado nossos preconceitos bobos e pensemos na realidade em que vivemos e na liberdade que merecemos e podemos ter, como respeito a nossas vontades e nossos corpos. Menos falso moralismo, por favor. Só o conhecimento e a discussão podem nos libertar de verdade.

art trippy drugs colors acid

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