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Tudo começa num encontro.  Eis que, flanando pela orla carioca recém aberta, decidimos entrar num portão que raramente vimos aberto. Dessa passagem enigmática; pessoas, conversas, livros, comidinha, cerveja… Hmm… nos encontramos.

Era o lançamento do livro Escultura Contemporânea no Brasil na Casa França-Brasil com apoio gastronômico do Restauro, restaurante-obra de Jorge Menna Barreto. Em pouco tempo, fiquei sabendo da mudança de gestão do centro cultural, das ativações e aberturas que o novo gestor estava propondo e fazendo. Entre seminários, cursos e exposições com grande número de visitantes (o que é bem raro para a casa que costumeiramente se encontrava vazia e à beira do colapso); acontecia algo de novo por ali.

A áurea gélida e asséptica da antiga Alfândega parecia se derreter com o calor dos corpos circulando. Acabei comprando o livro e, ao conversar com o autor, resolvi fazer um dos cursos que começaria na semana seguinte.

Seriam 3 meses de imersão nas teorias e práticas curatoriais de forma colaborativa, gloriosamente fechados por uma exposição na Casa França-Brasil. Eis que, em meio ao caos político e financeiro do país, um grupo de 20 inquietxs se encontrava em uma sala de 80m² com a temperatura do Alasca (mesmo!) era um frio de doer os ossos emanado pelo ar-condicionado central sem dó durante as nossas 6h de conversas semanais.

Após algum tempo de curso, em que a euforia inicial já foi abafada pela realidade cotidiana, um choque, passaríamos a nos encontrar no Paço Imperial. Os responsáveis pela nomeação de gestão resolveram pedir de volta os cargos da diretoria e, por fim, expulsar o curso para fora de si, antes mesmo de terminar. Um sintoma de como funciona a política nacional e cargos comissionados. NADA tem continuidade e manutenção, é um jogo de cartas.

Fizemos, então, a travessia até o Paço Imperial que nos recebeu com toda a pompa da sala dos Archeiros logo no primeiro dia. Até, mais uma vez, o cotidiano se instalar e iniciarmos mais uma travessia para uma saleta dentro da biblioteca do centro. Trocamos a amplidão da Candelária pelas grades da ALERJ, mas nunca nos sentimos tão entusiasmadas. Da ruptura, a possibilidade.

Em seguida, nos foi oferecida uma área do Paço para montar nossa exposição em andamento. Mais um desafio, escolher as obras participantes das doze artistas do curso paralelo para integrar a mostra. Após muitas discussões acaloradas; gênero apropriação cultural performance potência verdade violência memória… elas foram selecionadas e uma linha curatorial com núcleos foi desenhada em torno, a partir e entre elas.

Divisão, litorâneas, transborda e oceânicas foram avaliadas para nomearem a exposição, mas acabamos com Limiares. Na busca por definições desse plural, me deparei com a seguinte: “menor veemência ou intensidade possível que um estímulo pode transmitir e, ainda assim, ser sentido provocando uma excitação” e não acredito que há melhor palavra para simbolizar o que aconteceu nesse curso e acontece nesse estado e nesse país que a gente chama de Brazil [opa!] Brasil.

Limiares é uma coletiva colaborativa que traz 12 artistas mulheres com trabalhos diversos em torno de cotidiano, travessias e insurgências unidas pelo vínculo do acaso (ou da predestinação, caso você prefira). Embora nem todas as obras abordem questões políticas diretamente, o transcorrer do curso, da vivência, das trocas, do contexto atual e da localização – inclusive em seu deslocamento – são sintomas da democracia falha, da falta de continuidade e da confusão entre partido e política brasileña. Como cantou Elis, o Brazil não conhece o Brasil…

Por fim, a exposição abre no próximo sábado, dia 29 de julho, às 16h30 e todxs estão convidadxs para o lançamento do núcleo de experimentação do Paço Imperial, com a inauguração de uma nova sala de exposições e uma curadoria de vinte e três pessoas com doze artistas. Todas imersas em limiares.

Do caos, nasce a flor.