curso [re]Agir + Dia de Glória na Casa de Estudos Urbanos 2.2017 pt.1

Divagações e percepções de um curso de planejamento urbano, economia circular e artivismo. Publicaremos, por partes, as percepções obtidas durante o curso de planejamento urbano [re]agir na Casa de Estudos Urbanos. Hoje, INTRODUÇÃO e PERCEPÇÃO.

Uma filósofa em meio a arquitetxs, uma não acadêmica em meio a acadêmicxs, uma anti curadoria em meio a um grupo de curadoria, as relações e não relações desenvolvidas em gestões horizontais.

Afinal, como reagir?

INTRODUÇÃO

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Habito no bairro do Flamengo há 4 anos, mas sinto a transitoriedade do lugar como algo inerente a mim e aos espaços, inclusive, costumo brincar que moro no Flatete, explicitando o caráter que une o endereço de Zona Sul à decadência da aristocracia carioca de outrora. A fluidez dos caminhos, os edifícios históricos, as pedrinhas portuguesas, o mar tão perto e tão longe, as ruas arborizadas, os grafites, os pixos, os lambes, o Largo do Machado, tudo contribui para a relação de pertencimento nesse espaço de tanto conflito.

Percebo a Glória, por sua vez, como espaço de resgate histórico de um Rio que não mais existe e, talvez, nunca existiu. Descobri a Casa de Estudos Urbanos a convite de Bia Petrus durante projeto de curadoria colaborativa no Paço Imperial que gerou a exposição Limiares.

A casa, gentilmente, me cedeu uma bolsa para participar do curso de planejamento urbano que aconteceria durante 4 meses, focado na arquitetura, porém plural.

PERCEPÇÃO

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Na caminhada do Largo do Machado à Rua da Glória é curioso notar as barracas que ocupam toda a Rua do Catete e, logo após a Padaria Santo Amaro descem e se tornam Shopping Chão com toalhas estendidas e disposições diversas, a maioria apostando no excesso e poucos, mas alguns, no minimalismo.

O termo usado para designar o comércio informal de objetos de “segunda mão” surge a partir da Feira de Antiguidades da Praça XV. Entretanto, aos sábados seu cenário é transformado, abrigando a feira de antiguidades que chega a comportar até 400 barracas. Em seus arredores, encontra-se o “shopping-chão”, espécie de anexo da feira desprovido de barracas, cujos objetos, embora antigos e usados, não são considerados “antiguidades” pelos realizadores da feira. (EVANGELISTA, 2014)

O garimpo urbano toma as calçadas da Glória com uma pluralidade do que é considerado lixo e descartado, principalmente, pelas moradoras da aristocracia decadente da Zona Sul. Eu, inclusive, sou compradora e acredito na ressignificação de objetos, em especial, de mobiliário. Enalteço, aqui, a importância desses empreendedores para a economia local e para a redução de resíduos descartados nos aterros sanitários.

Utilizo referência de Milton Santos que, em O Espaço Dividido, aponta “a maior parte dos estudos não são feitos sobre a cidade inteira, mas sim sobre uma parte da cidade, impedindo, por isso mesmo, a formulação de uma autêntica teoria da urbanização.” Costuma-se pensar “a cidade como uma máquina maciça”, levando em consideração somente uma parte da economia urbana, esquecendo-se do que ele nomeia circuito inferior que está sempre dialogando com o reconhecido circuito econômico superior.

Nesse sentido, aponto a influência dos brechós, antiquários e feiras da cidade. Em especial, o supracitado Shopping Chão do bairro, em que pessoas em situação de rua montam verdadeiras lojas de nostalgia, construídas cotidianamente sobre toalhas e lençóis, as calçadas da Glória se distinguem de suas vizinhas pela quase ausência de camelôs em barraquinhas.

De produtos novos em massa ou artesanais que encontramos do Largo do Machado à Rua Cândido Mendes, a paisagem se transforma com ativadores de lembranças materializados em molduras, fotos, caixinhas, lustres e toda sorte de objetos domésticos carregados de histórias. Para os nostálgicos, é um deleite.

Na sociedade do descarte, onde tudo é provisório e as relações interpessoais são cada vez mais rasas, jogamos no lixo muitas coisas e significados. Quando vejo um aparelho eletrônico no Shopping-Chão, lembro de toda a propaganda de seu lançamento, do valor exorbitante que lhe era posto. Agora, ali no chão, seu significado muda. (…) recolocam o produto usado de volta na vitrine e reiniciam o ciclo de vida do produto. (NASCIMENTO, 2017)

Além do curso [re]Agir, minha presença na casa se estendeu à  participação no grupo de curadoria, ativação e produção dos Dias de Glória, manifestações artísticas (usualmente, performances) que tomaram conta dos espaços urbanos da região, escoando a arte de seus espaços usuais e deslocando-a para a rua e para públicos espontâneos e passantes.

Inclusive, a característica de bairro de passagem é algo que se nota nos fluxos de pedestres e carros e na própria fala de habitantes que registramos nas entrevistas orientadas por Luciana Lago e Irene Mello. É estranho pensar na quantidade de água que já houve correndo por aqueles lados e hoje parecem acelerar o passo de quem circula por essa grande área aterrada.

Os Dias de Glória, o Cine Mureta, o Provoca.Ações e outros eventos que a Casa anfitria me parecem iniciar o importante trabalho de conversa entre o espaço privado e o público, mostrando às pessoas que a tarefa de cuidar e manter a cidade também é delas e, especialmente, que as pequenas ações têm o poder de transformar, aos poucos, arealidade.

Foto: Aline Beatriz

Fotos: Aline Beatriz Souza
Performance <Sobre o Vestido Branco> de Cristiane de Souza durante o primeiro Dia de Glória, <Vestir-se, Despir-se> realizado na Feira Livre da Glória no dia 27 de agosto de 2017.

Foto de Destaque: Chris Duarte
Encerramento do desfile New Look durante mais um Dia de Glória realizado na outra parte da feira em 26 de novembro de 2017. Na foto, Bia Petrus, Almir França e Carmen.

Quer saber mais? >> LEIA A PARTE 2 AQUI