Seguimos com as percepções desses 4 meses gloriosos. Leia a primeira parte do texto AQUI.

TRAJETÓRIA

Fenótipo - 27.08 (15)

O curso, com duração de 4 meses, pretendia uma reestruturação e um protagonismo da população que, até o momento, não foram alcançados, mas, se fez espaço de escuta dos diversos atores, agentes e passantes da Glória.

A pesquisa-ação, por sua vez, também se encontra em fase inicial, tendo, nesses últimos meses, consistido em reconhecimento, sendo as ações mais pontuais e efêmeras, de percepção da realidade e aproximação às pessoas do bairro.

Conduzimos entrevistas, recebemos o presidente da Associação de Moradores, representantes de construtoras presentes no bairro, estudamos planos e ações de desenvolvimento de diversas comunidades, flanamos¹ pelo bairro e ressignificamos nossos olhares em relação ao que sabemos e conhecemos da Glória.

¹O flâneur é um observador da vida urbana. Especificamente tratando do contexto histórico no qual escreveu Baudelaire, as mudanças acontecidas – e que vinham e vêm acontecendo em continuidade – na sociedade francesa – e mundial – em meados do século XIX, o levaram a questionar-se se as idéias estéticas tradicionais eram – ou não – adequadas ao dinamismo da nova sociedade. E para absorver, embeber-se da realidade que governa as cidades modernas, nada como a flânerie. Caminhar, observar e imaginar: talvez sejam estas as 3 palavras que melhor definem a atividade do flâneur segundo a lógica de Baudelaire.

(SITe, 2011, grifo nosso)

 

As ativações artísticas, performances e manifestações culturais que propusemos e participamos nesse percurso, em especial, os Dias de Glória, os Cafés da Manhã com L<>L, as Provoca.Ações e os Cine Mureta, formatos híbridos que, mais que eventos, se fizeram acontecimentos ao causar tremores, (referência à Diva Revolucionária Ana Kiffer) e movimentar a cena cultural da região, contando com a divulgação digital e local na porta da casa.

Passamos, ainda, pelo processo de trabalho colaborativo. Com estudantes e profissionais, majoritariamente, de arquitetura e urbanismo, o curso teve sua pluralidade explorada nas outras formações e interesses da turma como um todo. Faltaram, contudo, mais dinâmicas de interação e reconhecimento para nos unir como um grupo mais coeso e ativo. As aulas da Cia Enviezada com Zé Alex talvez tenham sido as que mais nos ajudaram a desenvolver as relações mais profundamente. O período de crise e recessão auxiliou na dificuldade dos encontros, do usufruto do espaço e das relações com mais profundidade.

Apesar da conjuntura política, social, econômica e ideológica passando por uma ruptura, no mundo, no país e, em especial, no Rio de Janeiro, as ações de Dia de Glória se mostraram maximizadas em forma de clamor, resistência: Precisamos de mais dias de Glória!

Onde o esplendor histórico encontra a decadência patrimonial, o bairro da Glória se mostra palco ideal para o tipo de intervenção que propomos, para a crítica, para a dúvida, para a ocupação que desloca, enfrenta, às vezes incomoda, às vezes agrada, perturba, altera, transforma.

Com a corrupção escancarada em jornais e revistas, a crescente censura e a onda repressiva e conservadora, com as mentiras e falácias em torno da arte e da representação, do espaço do museu, do espaço de arte, da cultura, nos sentimos fortalecidas e empoderadas para extravasar a arte do espaço habitual e trabalhá-la na rua, na passagem, no espaço de encontro e conflito para ativar percepções e ressignificar olhares das pessoas fora do eixo da arte contemporânea.

A performance, por sua vez, é ferramenta interessantíssima que pode traçar a ponte, gerando um formato híbrido que faz muito sentido para a realidade atual, unindo ativação artística, gastronomia, intervenção urbana, ativismo, festa, cinema, incentivando a economia circular e a participação ativa das pessoas.

Fato engraçado é que, toda vez que um policial vinha questionar nossas ações, pedir licenças e afins, a camuflávamos de festa de aniversário. Ora, há algo nos aniversários que dão permissão instantânea a qualquer ocupação urbana. Fica a dica!

Brincadeiras à parte, o que nos parece faltar nas cidades é a relação de pertencimento. Conforme diz o historiador, professor e boêmio  Antonio Edmilson Martins Rodrigues, precisamos, muito mais que discutir identidade, criar sítios simbólicos de pertencimento, espaços de conforto e abrigo em que as pessoas se sintam acolhidas e pertencentes o suficiente para participar da costura da cidade. Como fazer isso numa cidade em que a mobilidade quase inexiste?

Fenótipo - 27.08 (13)

Foto Destaque: Chris Duarte

Abertura da Performance <New Look>, desfile em mais um DIA DE GLÓRIA com modelos não-modelos em roupas do Shopping Chão que passaram por intervenção de Almir França, idealizador do Projeto Eco Moda que ressignifica vestimentas sem produção de resíduos.

Fotos do corpo do texto: Aline Beatriz de Souza

Performance <Fenótipo> de Eduardo Mariz utilizando objetos do Shopping Chão colocados nele pelo público no primeiro DIA DE GLÓRIA <Vestir-se e Despir-se>.

Opa, tem mais! Leia a terceira parte aqui.